De acordo com Mussara (1995), de todos os tesouros que preserva espalhados em suas ruas, a pequena cidade baiana de Cachoeira é detentora de uma das manifestações culturais mais ricas do país. A festa de Nossa Senhora da Boa Morte, realizada no fim de semana mais próximo a 15 de agosto, mais do que uma simples comemoração é um convite para ingressar num mundo onde cultura, tradição, história e magia convivem e se confundem. Situada na região do recôncavo baiano, a cidade nasceu de um engenho de açúcar, no século XVI. Devido à fertilidade do seu solo e ao intenso comercio, foi um dos principais polos econômicos da Bahia até o século XIX. Do se apogeu Cachoeira ainda conserva algumas tradições. A festa de Nossa Senhora da Boa Morte é uma delas.
Participar dessa cerimônia é mergulhar no passado e reviver os tempos do Brasil Colônia, do Império e do país independente, mas ainda escravocrata. Sendo assim, percorrer uma paisagem onde a energia dos escravos mortos e torturados ainda ecoa. É desvendar aquele que talvez seja o primeiro movimento feminista negro do país.
A IBM, é uma organização de mulheres negras que a sua maneira resistiu e se rebelou contra os sofrimentos impostos pelo regime escravagista, desde a jornada diária de trabalho, 18h nas lavouras, aos castigos e mutilações, como o corte dos tendões das fujonas, os açoites em público, os grilhões e brasas em seus rostos, a extração e quebra dos dentes a frio e o corte de orelhas e línguas daqueles considerados mais afoitos, sem falar nos abusos sexuais.
Não é por acaso que esse período de mais de 3500 anos é um dos capítulos mais sombrios da história das Américas. Mas é nesse cenário que surgiu a Irmandade da Boa Morte, que é quem organiza até hoje a festa em Cachoeira. Fundada em 1820, essa sociedade de mulheres negras e mestiças escravas e libertas, tinha duas metas principais: comprar a carta de alforria para libertação dos maridos, filhos e outros escravos, e preservar os rituais das religiões africanas, até então terminantemente proibidas como culto dos orixás. Posteriormente, essa organização fundou a primeira casa de candomblé, Ketu do Brasil.
Passados quase dois séculos de sua criação a IBM, ainda é uma confraria católica de mulheres negras e mestiças que representam a ancestralidade dos povos africanos escravizados e libertos. Em Cachoeira a festa de Nossa Senhora é realizada desde o inicio do movimento abolicionista, durante 68 anos, entre a organização da Irmandade (1820) até a decretação da Lei Áurea (1888), as irmãs faziam um ritual secreto e sem as cerimônias católicas. Apenas rezavam suas novenas e faziam o samba de roda uma dança em que as participantes faziam uma grande roda e batiam palmas),depois disso é que se celebrava a missa católica. Ainda hoje a cerimônia preserva seus traços característicos, marcados pela memória do sofrimento dos escravos para alcançar a liberdade. A festa da Boa Morte é um evento dos mais tradicionais de Cachoeira, que cataliza o turismo internacional. A cidade fica em extas e como o acontecimento, nela podem ser encontradas pessoas de várias partes do mundo, principalmente negros norte americanos seja em busca de cultura e religiosidade, seja apenas curiosidade e prazer.
Essa associação de mulheres guerreiras que deram força a Irmandade em devoção a N. Senhora, não é apenas uma confraria que cultuosamente seus dogmas religiosos. Ela é também a representação mais viva e pura da que a alma do baiano está na fé.
A Irmandade da Boa Morte torna-se verdadeira exposição minuciosa de uma manifestação cultural afro-baiana de prestigio internacional e segundo Braga mostra a contribuição do negro à cultura nacional e ao reconhecimento mais profundo do substrato sociocultural que elabora e define sua identidade cultural, no contexto da sociedade brasileira.
A I BM por ser uma das mais importantes instituições culturais do país transforma Cachoeira na capital da magia baiana, denominada por alguns. Afinal essa cidade está elevada ao posto de cartão postal da Bahia.
O turismo religioso vem crescendo gradativamente e a tendência é aumentar cada vez mais, O turismo religioso vem crescendo gradativamente e a tendência é aumentar cada vez mais .Esse segmento turístico motiva as pessoas a conhecer a identidade de um local, além de influenciar o desenvolvimento da atividade turística.
Ha um trabalho chamado "PROJETO AIYE ORUN", iniciado em abril de 1992, que visa preservar e divulgar a cultura afro-baiana existente na Irmandade da Boa Morte, através de centro de cultura constituído de um espaço dedicado a educação e divulgação de manifestações regionais tanto da cidade de Cachoeira quanto do recôncavo baiano. Em 12 de agosto de 1995, um desses objetivos desse projeto foi consolidado.
A construção da sede deu-se com a incessante luta de Jorge Amado e de alguns artistas que interviram a favor da Irmandade, o que demonstra o quanto é importante conservar as tradições culturais baianas, pois só com a perpetuação da cultura transmitida pelos costumes e hábitos de um povo pode-se garantir a formação da identidade intelectual e cultural de uma nação.
REFERÊNCIAS
BRAGA, Júlio. Ancestralidade afro brasileira: o culto de babá egum. Salvador: CEAD/ Ianamá, 1992.
MUSSARA, Fabíola, Revista Planeta. Agosto/2005